poema náufrago (quadro de salvador dalí)

redijo

apenas uma outra história

não tenho idéia

se ela sobreviverá à memória

 

sentimentos como nuvens

dispersos por completo

anestesiados pela dúvida

poema náufrago

 

o coração queima

bate em falso

paixão cega

sonho turvo

herança do absurdo

 

revogue cada palavra

proclamada com doçura

 

não sonhe - não ame

não mude o cenário

mãos ao alto!

poema náufrago

 

 

 

atalho boca - ilustração jean-michel basquiat

outra noite
procura
a mescla
da clara angústia
com a negra amargura

crava um beijo
no espaço raso
entre uma fala
e outra
atalho boca

prego pensamento
ontem suspenso
passo quadro a quadro
revejo
quebro

corte seco e reto
outro roteiro
no vero
aspecto do passado
eterno

poema ambiente

parece que foi ontem

ou como se fosse

deixou-se de ser-te

e não amar-te

nem sombra de desejo

nem trégua de mágoas

planar sobre estrelas

recolher mil lágrimas

agir em silêncio

persuadir a palavra.

sem título nº 1

 

cena ultraleve

aspecto de areia

não ouço a última sílaba

a maré breve

a lua cheia

esqueço o panorama

a lembrança amena

reticências...

falta um pedaço

escrevo um poema.

talvez seja um passáro (*) imagem de pablo picasso








talvez seja um pássaro voando
talvez seja um minuto de silêncio
talvez seja o sol se escondendo
talvez o inverno não tenha
passado
talvez aqui seja uma esquina
talvez seja alguém se aproximando
talvez sejam vozes tempo e silêncio a sós
talvez seja a lua cheia que dilata a pupila
da noite
talvez não seja nada
ângulos adjacentes do nada
provavelmente um refugo
talvez seja o tempo
se dissolvendo
folhas da cor do cobre
aguardando o azul
talvez seja flor
atáxica
talvez seja um céu de dezembro
talvez esteja calada
acariciando o silêncio
dos estames
talvez seja um vento real
anêmonas expostas ao sol
talvez esta flor seja agave
talvez funcho
o azul neste ínterim brilhe
talvez seja só um botão
lilás
roído por dentro
talvez seja o sol se pondo

(*) régis bonvicino
en beirute

desejo
em tudo que vejo
minhas obras
são frases
olhares no espelho

refém
do meio
regras rasas
transmitidas
via satélite

domínio
milenar
em cheio
herança
dos tempos

o homem é o bicho do homem
não há como escapar!
mas angústias

não há mar em mim

deserto

nenhum verso

por perto

perco o ar

a armadura

bebo angústias

em dose única

lanço flechas

flores dispersas

flerto expresso

vago tropeço

não há mar em mim

mais nenhum verso

angústia abrupta

vazia aguda

crua

encontro

pergunto

não respondo

absorvo

olho no olho

medito

correspondo

sumo nos sonhos

eu perco

e encontro

descanso

em seus ombros

escondo

e me vejo

em seu rosto.
o óbvio absurdo

fevereiro
eu gosto de vê-lo
revelo meu desejo
confesso
percebo
dispenso
o silêncio
friedrich nietzche
trouxe meia noite
sede do nortuno
o óbvio absurdo.
epílogo

no prumo
a breve treva
rompe
o discurso

repare!
realidade mínima
atrae hipocrisia

no país de alice
só há propaganda
mil maravilhas

siga as pistas
desarme a armadilha.
en manigá - pop rap nonsense

neguno
tribeca
panarema

qta horá arame

maganushe
maganushe

êta!
enqbec
litua
lamora lisa
escalaptose
dariche
aláoxose.
pela órbita


para a serpente
em seu desfile sagrado
nas vitrines manchadas
pela branca névoa da manhã

ela recolheu as sobras
sextas perdidas
sábados imprevistos
trilhas de ardis

deixarás os pingos nos is
a sentença na dispensa
a vingança na vista

usarás remorsos
como escudo
teorias psicoanalíticas
em seu discurso

o sonho breve
o amor bruto!
sargaços ( * )

 

criar é não se adequar à vida como ela é,
nem tampouco se grudar às lembranças pretéritas
que não sobrenadam mais
nem ancorar à beira-cais estagnado,
nem malhar a batida bigorna à beira-mágoa

nascer não é antes, não é ficar a ver navios,
nascer é depois, é nadar após se afundar e se afogar
braçadas e mais braçadas até perder o fôlego
(sargaços ofegam o peito opresso)
bombear gás do tanque de reserva localizado em algum ponto
do corpo
e não parar de nadar,
nem que se morra na praia antes de alcançar o mar

plasmar
bancos de areias, recifes de corais, ilhas, arquipélagos, baías,
espumas e salitres,
ondas e maresias

mar de sargaços

nadar, nadar, nadar e inventar a viagem, o mapa
o astrolábio de sete faces,
o zumbido dos ventos em redemunho, o leme, as velas, as cordas,
os ferros, o júbilo e o luto
encasquetar-se na captura da canção que inventa orfeu
ou daquela outra que conduz o mar absoluto

só e outros poemas
soledades
solitude, récif, étoile

através dos anéis escancarados pelos velhos horizontes
parir, desvelar, desolcutar novos horizontes
mamar o leite primevo, o colostro, da via láctea
e mormente, remar contra a maré numa canoa furada
somente para martelar um padrão estróico-tresloucado
de desaceitar o naufrágio
criar é se desacostumar do fado fixo
e ser arbitrário

sendo os remos imateriais

(remos figurados no ar
pelos círculos das palavras)

(*) wally salomão

com a pulga atrás da orelha (imagem - joan miró)


a noite
descansa
entre sons
e detritos

as luzes
dos carros
dançam
no trânsito
frenético

e vago
entre a sanidade
e a loucura
com discreta
virtude

pedi ajuda
recebi descaso
volto para
o início de tudo
recomeço.



inteira fria


seu olhos mornos
fixos em nelson rodrigues
a vida como ela é

no início do dia
inteira fria
sua pela clara e macia

seu rosto de porcelana
seus passos firmes
em direção a santana

mais uma vez sozinha
inteira fria
sem o calor do seu corpo
a infinita sensação de desconforto

agora estou pronto
e escondo-me num canto
onde cheio de lembranças
eu a encontro



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