sargaços ( * )

 

criar é não se adequar à vida como ela é,
nem tampouco se grudar às lembranças pretéritas
que não sobrenadam mais
nem ancorar à beira-cais estagnado,
nem malhar a batida bigorna à beira-mágoa

nascer não é antes, não é ficar a ver navios,
nascer é depois, é nadar após se afundar e se afogar
braçadas e mais braçadas até perder o fôlego
(sargaços ofegam o peito opresso)
bombear gás do tanque de reserva localizado em algum ponto
do corpo
e não parar de nadar,
nem que se morra na praia antes de alcançar o mar

plasmar
bancos de areias, recifes de corais, ilhas, arquipélagos, baías,
espumas e salitres,
ondas e maresias

mar de sargaços

nadar, nadar, nadar e inventar a viagem, o mapa
o astrolábio de sete faces,
o zumbido dos ventos em redemunho, o leme, as velas, as cordas,
os ferros, o júbilo e o luto
encasquetar-se na captura da canção que inventa orfeu
ou daquela outra que conduz o mar absoluto

só e outros poemas
soledades
solitude, récif, étoile

através dos anéis escancarados pelos velhos horizontes
parir, desvelar, desolcutar novos horizontes
mamar o leite primevo, o colostro, da via láctea
e mormente, remar contra a maré numa canoa furada
somente para martelar um padrão estróico-tresloucado
de desaceitar o naufrágio
criar é se desacostumar do fado fixo
e ser arbitrário

sendo os remos imateriais

(remos figurados no ar
pelos círculos das palavras)

(*) wally salomão

com a pulga atrás da orelha (imagem - joan miró)


a noite
descansa
entre sons
e detritos

as luzes
dos carros
dançam
no trânsito
frenético

e vago
entre a sanidade
e a loucura
com discreta
virtude

pedi ajuda
recebi descaso
volto para
o início de tudo
recomeço.



inteira fria


seu olhos mornos
fixos em nelson rodrigues
a vida como ela é

no início do dia
inteira fria
sua pela clara e macia

seu rosto de porcelana
seus passos firmes
em direção a santana

mais uma vez sozinha
inteira fria
sem o calor do seu corpo
a infinita sensação de desconforto

agora estou pronto
e escondo-me num canto
onde cheio de lembranças
eu a encontro



amor à queima roupa


vunerável
livre de todas
as redes de proteção
a procura continua

volta o rosto
para outra direção
persegue
outros rumos

olhares inócuos
presos em ondas sonoras
na próxima ela olha

sua alma queima
quando chega
e passa de raspão

interminável sonho
a preencher a estação



pequenos quadros

dissimulada
impertinente

second time
and you know why?

inevitável
impossível
sou capaz de jurar
que é inevitável
impossível jurar

assim que eu
parar de pensar
tudo continuará
no mesmo lugar
a mudar

por que será
que você não me encontra?

esconderás meus sonhos
afinal de contas?

[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]
Meu Perfil
BRASIL , Sudeste , GUARULHOS , GOPOUVA , Homem , de 26 a 35 anos

 
Visitante número: