criar é não se adequar à vida como ela é,
nem tampouco se grudar às lembranças pretéritas
que não sobrenadam mais
nem ancorar à beira-cais estagnado,
nem malhar a batida bigorna à beira-mágoa
nascer não é antes, não é ficar a ver navios,
nascer é depois, é nadar após se afundar e se afogar
braçadas e mais braçadas até perder o fôlego
(sargaços ofegam o peito opresso)
bombear gás do tanque de reserva localizado em algum ponto
do corpo
e não parar de nadar,
nem que se morra na praia antes de alcançar o mar
plasmar
bancos de areias, recifes de corais, ilhas, arquipélagos, baías,
espumas e salitres,
ondas e maresias
mar de sargaços
nadar, nadar, nadar e inventar a viagem, o mapa
o astrolábio de sete faces,
o zumbido dos ventos em redemunho, o leme, as velas, as cordas,
os ferros, o júbilo e o luto
encasquetar-se na captura da canção que inventa orfeu
ou daquela outra que conduz o mar absoluto
só e outros poemas
soledades
solitude, récif, étoile
através dos anéis escancarados pelos velhos horizontes
parir, desvelar, desolcutar novos horizontes
mamar o leite primevo, o colostro, da via láctea
e mormente, remar contra a maré numa canoa furada
somente para martelar um padrão estróico-tresloucado
de desaceitar o naufrágio
criar é se desacostumar do fado fixo
e ser arbitrário
sendo os remos imateriais
(remos figurados no ar
pelos círculos das palavras)
(*) wally salomão

a noite
descansa
entre sons
e detritos
as luzes
dos carros
dançam
no trânsito
frenético
e vago
entre a sanidade
e a loucura
com discreta
virtude
pedi ajuda
recebi descaso
volto para
o início de tudo
recomeço.
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