
a poesia me salvou
guardou meu tempo
abriu os caminhos
devorou meu medo
a poesia escolheu
meus amores
e enfeitou em preto e branco
meus devaneios
engoliu à noite
as angústias
revelou de manhã
meus pesadelos
a poesia acolheu
uma a uma minhas palavras
refez os sentidos
aprimorou as metáforas
rabiscou à lápis
alguns desejos
e gravou em pedra
minha lápide - meu roteiro
a última dúvida convicta do espelho...

trouxestes morangos silvestres?
noites intermináveis
de um sonho agreste
dúvidas ou silêncio
um entardecer agosto
nublado seu rosto
cultivei amores na varanda
sem cautela ou medida
como se fosse minha
a sua própria vida
um voo solo até a lua
em pleno eclipse
uma tarde em marte
infinito covarde
como se um filme de bergman explicasse!

há tempos
tudo era dez anos atrás
o primeiro beck
o segundo mozart
a possibilidade infinita
de todas as escolhas
miles davis
um vinho
um compasso atrasado
um solo indefinido
em seu olhar eu dormiria tranquilo
pois tudo em você é infinito!

esta noite pensei em você
mas é estranho – dirias
meu coração é uma sala vazia
um boteco na periferia
elas sonham uma história que fascina
um cinema italiano da década de cinquenta
um fellini dentro de cada filme
mas a cena não é a mesma
nem a tristeza muito menos a alegria
naquele momento era só mais um fim de dia
um náufrago dentro de você
uma ilha....

tubarões fogem para o lado
mais escuro do oceano
aspiram a última gota de oxigênio
vibram quando atingem o plano
tomam o mesmo remédio por mil anos
quando não o encontra
flutuam como insanos
recolhem os últimos grãos
tubarões dormem aos farrapos
dentro da panela de um vulcão

por um instante
pensei em você
e este momento foi infinito
cada pedaço deste pensamento
é este poema que está escrito
dentro dele guardei seu brilho
que por horas e horas eu admiro...

espero por um momento
onde possa transformar
o barulho em silêncio
despistar a angústia
nas linhas de um soneto
navegar no absurdo
como se fosse um lamento
refazer o discurso
ser eu mesmo
em outra aventura
mudar o roteiro
dizer que foi único
mas não o primeiro
falar em poemas
de outra maneira
metáforas pequenas
para grandes problemas

se fizesse uma paródia
ou escrevesse um livro
realizaria o impossível
um roteiro que ainda não foi escrito
um romance improvável
um rascunho infinito
mas a noite desliza frenética
a passos largos
como se tudo que estivesse
para acontecer
esperasse ansioso e tranquilo
em sonhos recentes e antigos

luas, marfins, instrumentos e rosas,
traços de dúrer, lampiões austeros,
nove algarismos e o cambiante zero,
devo fingir que existem essas coisas.
fingir que no passado aconteceram
persépolis e roma e que uma areia
sutil mediu a sorte dessa ameia
que os séculos de ferro desfizeram.
devo fingir as armas e a pira
da epopeia e os pesados mares
que corroem da terra os vãos pilares.
devo fingir que há outros. é mentira.
só tu existes. minha desventura,
minha ventura, inesgotável, pura.
* jorge luis borges


as melhores músicasnão tocam nas emissoras de rádioam - fm - ou de bairronas calçadas onde trafegomosaicos de olharesdesejo labirintouma chuva impertinenteembala o domingomais um fim de décadae o céu diluindonas pontas das folhascomo se fossem outrasum não sentimentodespido em conta-gotascomo se todas as palavrasnascessem prontascoladas na sua boca

resumindodigamos que oscilamosentre alegria e tristezaquase como dizerentre o céu e a terraainda que o céu de agora e o de semprese ausente sem avisoas idéias vão se tornando sólidassensações primáriaspalavras ainda em rascunhocorações que batem como máquinasserão nossos ou de outros?este choro de inverno não é igualao suor do verãoa dor é um preço / não sabemoso custo inalcançável da sabedoriapensamos e pensamos duramentee uma paixão estranha nos invadecada vez mais tenazmas mais tristeresumindonão somos o que fomosnem menos do que fomostemos uma desordem na almamas vale a pena sustentá-lacom as mãos / os olhos / a memóriatentemos pelo menos nos enganarcomo se o bom amorfosse a vida(*) mario benedetti - tradução denise mota


|
|||
|
|
|||
|
|||