jardim invisível

 

quando li em seus olhos

as palavras invisíveis

em versos, músicas e sonhos

surgiu uma nova janela em perspectiva

na ordem da sabedoria

o sol chega em seus olhos

refletido em seus cabelos

e ilumina toda atmosfera

quando você respira

em seu jardim

as flores são incríveis

pois são como você:

lindas e livres!

incomunicado dois

o que há de mais importante

para lhe dizer

eu ainda não disse

e provavelmente não encontrarei

a expressão exata

porém estará sempre presente

no silêncio de cada noite

na surpresa da próxima página

nas palavras que nunca serão escritas

nas últimas horas dessa madrugada

nos momentos em que estaremos sós

ficará gravado, marcado, tatuado

na lembrança de tudo que teremos de nós!

poema espelho

a poesia me salvou
guardou meu tempo
abriu os caminhos
devorou meu medo

a poesia escolheu
meus amores
e enfeitou em preto e branco
meus devaneios

engoliu à noite
as angústias
revelou de manhã
meus pesadelos

a poesia acolheu
uma a uma minhas palavras
refez os sentidos
aprimorou as metáforas

rabiscou à lápis
alguns desejos
e gravou em pedra
minha lápide - meu roteiro
a última dúvida convicta do espelho...

morangos silvestres

trouxestes morangos silvestres?

noites intermináveis

de um sonho agreste

dúvidas ou silêncio

um entardecer agosto

nublado seu rosto

cultivei amores na varanda

sem cautela ou medida

como se fosse minha

a sua própria vida

um voo solo até a lua

em pleno eclipse

uma tarde em marte

infinito covarde

como se um filme de bergman explicasse!

 

um solo de miles davis em meu apartamento

há tempos

tudo era dez anos atrás

o primeiro beck

o segundo mozart

a possibilidade infinita

de todas as escolhas

miles davis

um vinho

um compasso atrasado

um solo indefinido

em seu olhar eu dormiria tranquilo

pois tudo em você é infinito!

 

um náufrago dentro de você

esta noite pensei em você

mas é estranho – dirias

meu coração é uma sala vazia

um boteco na periferia

elas sonham uma história que fascina

um cinema italiano da década de cinquenta

um fellini dentro de cada filme

mas a cena não é a mesma

nem a tristeza muito menos a alegria

naquele momento era só mais um fim de dia

um náufrago dentro de você

uma ilha....

 

tubarões nadam pela janela

tubarões fogem para o lado

mais escuro do oceano

aspiram a última gota de oxigênio

vibram quando atingem o plano

tomam o mesmo remédio por mil anos

quando não o encontra

flutuam como insanos

recolhem os últimos grãos

tubarões dormem aos farrapos

dentro da panela de um vulcão

 

brilho eterno de uma mente sem lembranças...

por um instante
pensei em você
e este momento foi infinito
cada pedaço deste pensamento
é este poema que está escrito
dentro dele guardei seu brilho
que por horas e horas eu admiro...

poema de outra maneira

espero por um momento

onde possa transformar

o barulho em silêncio

despistar a angústia

nas linhas de um soneto

navegar no absurdo

como se fosse um lamento

refazer o discurso

ser eu mesmo

em outra aventura

mudar o roteiro

dizer que foi único

mas não o primeiro

falar em poemas

de outra maneira

metáforas pequenas

para grandes problemas

sonhos recentes e antigos

se fizesse uma paródia

ou escrevesse um livro

realizaria o impossível

um roteiro que ainda não foi escrito

um romance improvável

um rascunho infinito

mas a noite desliza frenética

a passos largos

como se tudo que estivesse

para acontecer

esperasse ansioso e tranquilo

em sonhos recentes e antigos

o apaixonado - por jorge luis borges

luas, marfins, instrumentos e rosas,

traços de dúrer, lampiões austeros,

nove algarismos e o cambiante zero,

devo fingir que existem essas coisas.

fingir que no passado aconteceram

persépolis e roma e que uma areia

sutil mediu a sorte dessa ameia

que os séculos de ferro desfizeram.

devo fingir as armas e a pira

da epopeia e os pesados mares

que corroem da terra os vãos pilares.

devo fingir que há outros. é mentira.

só tu existes. minha desventura,

minha ventura, inesgotável, pura. 

* jorge luis borges

oriente
dormi com o livro
acordei com kafka
ninguém sabe em qual direção
irá itamar assumpção
mais uma noite
a cidade acordará consciente
e do sul pro leste
iremos pro oriente
flores raras e banalíssimas

a arte de perder não é nenhum mistério 
tantas coisas contêm em si o acidente 
de perdê-las, que perder não é nada sério
escreveu elizabeth bishop
oriente-se neste prédio
o próximo andar moderno
não soube nada sobre o corte do seu terno
o velho discurso foi publicado
com metáforas aéreas
tatuado nas curvas das suas pernas
esqueci o último verso
de uma poesia que não era nada séria
bishop tá certa! 
outras

as melhores músicas
não tocam nas emissoras de rádio
am - fm - ou de bairro
 
nas calçadas onde trafego
mosaicos de olhares
desejo labirinto
uma chuva impertinente
embala o domingo
 
mais um fim de década
e o céu diluindo
nas pontas das folhas
como se fossem outras
 
um não sentimento
despido em conta-gotas
como se todas as palavras
nascessem prontas
coladas na sua boca

 

resumo (*)

resumindo
digamos que oscilamos
entre alegria e tristeza
quase como dizer
entre o céu e a terra
ainda que o céu de agora e o de sempre
se ausente sem aviso

as idéias vão se tornando sólidas
sensações primárias
palavras ainda em rascunho
corações que batem como máquinas
serão nossos ou de outros?
este choro de inverno não é igual
ao suor do verão

a dor é um preço / não sabemos
o custo inalcançável da sabedoria

pensamos e pensamos duramente
e uma paixão estranha nos invade
cada vez mais tenaz
mas mais triste

resumindo
não somos o que fomos
nem menos do que fomos
temos uma desordem na alma
mas vale a pena sustentá-la
com as mãos / os olhos / a memória

tentemos pelo menos nos enganar
como se o bom amor
fosse a vida
(*) mario benedetti - tradução denise mota

 

 

 

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